Capítulo III —
Há perdas que o tempo não cura.
Há dores que não diminuem — apenas se acomodam dentro da gente, como hóspedes que nunca mais vão embora.
E foi assim com a minha avó.
Por mais que eu tente encontrar palavras que expliquem aquele dia, nenhuma delas parece justa o bastante. É como se a lembrança tivesse sido gravada não apenas na memória, mas na pele, no corpo inteiro. Às vezes, basta fechar os olhos para que tudo volte com uma nitidez que me assusta.
Ela havia adoecido, mas ainda assim ninguém imaginava que seria o fim. Minha avó sempre teve aquele tipo de força silenciosa que engana — a gente acredita que pessoas assim nunca vão embora de verdade. Elas parecem eternas. Parecem parte da estrutura do mundo.
E então… o telefone tocou.
Era minha tia Kelly.
Eu lembro da voz dela — trêmula, quebrada, quase infantil. Ela estava com minha avó no exato momento em que os fios da vida começaram a se desprender. E, desesperada, tentou ligar para todos. Mas ninguém atendia. Ninguém.
Até que eu atendi.
E acho que, de alguma forma cruel, o destino decidiu que eu ouviria aquilo que nenhuma pessoa deveria ouvir de quem mais ama: o último suspiro.
Aquele som…
Aquela pausa…
Aquele silêncio depois…
Até hoje me acompanha.
Às vezes, à noite, quando tudo está quieto demais, parece que o eco daquele instante volta para me visitar. E dói. Dói como se fosse ontem. Dói como se o telefone tivesse acabado de tocar.
Dizem que a morte tem cheiro, tem peso, tem presença.
Mas, para mim, a morte teve som.
O som do fim.
Nos dias seguintes, eu tentava agir como se fosse forte — como se conseguisse aceitar, como se entendesse. Mas, na verdade, era como caminhar dentro de um sonho ruim, desses em que a gente tenta correr, mas não consegue mover as pernas. Tudo era lento demais. Surreal demais. Cruel demais.
Minha avó sempre foi uma das bases da minha vida.
O tipo de amor que não exige, não cobra, não abandona.
Aquela que sempre tinha um conselho, mesmo quando eu não pedia.
Aquela que me abraçava como se o mundo inteiro coubesse naquele gesto.
E agora… não havia mais abraço.
Eu daria tudo — absolutamente tudo — para sentir mais uma vez suas mãos segurando as minhas, para ouvir sua voz chamando meu nome, para sentir o cheiro da casa dela ao chegar para uma visita. Daria tudo por um instante.
Até hoje, ouvir qualquer áudio dela é como acender uma ferida.
A voz dela, tão familiar, tão minha, parece atravessar o tempo, me puxar para perto — e, ao mesmo tempo, me lembrar que nunca mais vou poder responder.
É uma dor estranha: quente, funda, silenciosa.
No dia em que ela partiu, algo em mim também se quebrou.
E não voltou a ser como era.
A morte tem essa mania injusta de levar mais do que uma pessoa.
Leva memórias vivas.
Leva futuros possíveis.
Leva a sensação de que alguém no mundo nos amava de forma incondicional.
Mas, de alguma forma, minha avó ainda vive aqui.
Nos meus gestos.
Nas minhas lembranças.
Nas coisas que eu digo sem perceber.
E até no amor que tento dar às pessoas — porque o que aprendi com ela ninguém me tira.
Ela não está mais no mundo.
Mas vive em mim.
E talvez isso seja tudo o que me mantém de pé quando a saudade aperta.
Este capítulo não é apenas sobre perda.
É sobre amor.
Um amor tão grande que nem mesmo a morte conseguiu apagar.
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